À PROCURA DE LEM

Stanislaw Lem (1921-2006), o escritor polaco em torno de cujas pessoa e obra este espectáculo foi construído, é uma figura literária famosa e publicada no mundo inteiro em colecções de cariz popular e, ao mesmo tempo, um autor paradoxalmente desconhecido. Pegando apenas no exemplo da atenção que o cinema dedicou aos seus textos, verificamos que, por um lado, dois cineastas de referência, Andrei Tarkovski e Steven Soderbergh, adaptaram o romance «Solaris», por outro, inúmeros filmes, alguns dos quais estrondosos sucessos de bilheteira – nomeadamente «Matrix» de Les Wachowski ou «eXistenZ» de David Cronenberg – se inspiraram do universo, das reflexões, das conjecturas, dos enredos de Lem sem que o seu nome jamais seja citado. Para esta equipa reunida pelo Teatro de Ferro, tratava-se pois de fabricar um objecto que despertasse a curiosidade pelo legado de Lem e pelas inquietações de que os seus livros são portadores.

A obra de Lem é muito vasta e explora, dentro do género apelidado de «ficção científica», questões filosóficas e éticas muito variadas – do lugar da humanidade no universo ao desespero do homem confrontado com as suas limitações, passando pela interrogação acerca da inteligência. Dentro desse manancial de assuntos interessantes e importantes, escolhemos temas cuja actualidade ou intemporalidade nos parecem notórias, a saber: a traição, a paranóia, a duplicação e a duplicidade, não esquecendo a relação de profunda dependência que a ciência tem com a política sem que essa relação seja norteada por uma deontologia rigorosa e específica.

Dentro dos seus livros, Lem trabalha sempre no segundo grau, todo e qualquer enunciado é passível de ser desdito umas páginas adiante. Então, em lugar de explorar o princípio da mentira inerente à linguagem e às explicações, preferimos privilegiar uma tomada de consciência de que, aquém ou além da expressão verbal, as próprias emoções são terríveis instrumentos de manipulação.

Como Lem e como um número felizmente muito elevado de pensadores, ficcionistas, dramaturgos e poetas, façamos do exercício da dúvida uma prova de apreço pela vida.

Saguenail e Regina Guimarães

 

Fotos de Manuel Ruas Moreira 

 

Ficha do Espectáculo

encenação – Igor Gandra
dramaturgia e realização – Saguenail
texto – Regina Guimarães
cenografia – Igor Gandra e Hernâni Miranda
direcção de movimento – Carla Veloso
sonoplastia – Hélder Marciano e Igor Gandra
realização plástica – Hernâni Miranda
caracterização e efeitos especiais – Ricardo Graça e Júlio Alves
vídeo de cena/ imagem e edição – Riot Films
desenho de luz – Teatro de Ferro e Mariana Figueroa
interpretação – Carla Veloso, Hernâni Miranda, Igor Gandra, Igor Silva, João César e Rita Trigo
operação de luz – Mariana Figueroa
oficina de construção – Américo Castanheira / Tudo Faço, Ana Ferreira (costura), Luísa Natário, Pedro Esperança, Carlota Gandra, João César e Igor Silva (estagiários – Chapitô), Daniel Cardoso (estagiário – Escola Profissional do Centro Juvenil de Campanhã)
produção – Teatro de Ferro
coprodução – CCB / Fábrica das Artes e Teatro Municipal do Porto
agradecimentos – Susana Veloso, Bohdan Sebestik, Freddy Dejonghe, Robert Glassburner, Sítio do Cano Amarelo

duração – 45 ‘ aproximadamente
CE – Maiores de 12 anos

O Teatro de Ferro é uma estrutura financiada pelo Ministério da Cultura, Direção-Geral das Artes


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