BRECHT PARA PRINCIPIANTES – FILME

Havia uma Associação de Solidariedade Social que se ocupava de pessoas com dificuldades. Havia um encenador politicamente comprometido que trabalhava com pessoas em situação difícil, nomeadamente com a tal Associação. Havia um dramaturgo que concebia o Teatro como instrumento de tomada de consciência e que assumia escrever peças didáticas.

O encenador foi ter com o cineasta para o desafiar a fazer um filme a partir da sua obra cénica. O cineasta foi visitar as instalações da Associação e optou por  filmar nesse local porque o cinema lida mais com os lugares da vida do que com o palco. O dramaturgo desconfiava muito dos cineastas que se apoderam das obras teatrais. O cineasta desconfiava muito dos filmes e das peças que não se apresentam como tais – e, talvez por isso, se sentiu próximo da forma nua de teatralidade do encenador e da maneira distanciada como o dramaturgo desdobra as questões que coloca. Destes encontros com afinidades à mistura nasceu o presente filme, interpretado por utentes e trabalhadores da QPI.

As duas peças de Brecht – O QUE DIZ SIM e O QUE DIZ NÃO – tratam com aparente singeleza e muito real complexidade a questão do respeito pela tradição. A doença como negro pano de fundo, a escalada até ao abismo como metáfora da interrogação filosófica decorrente da situação-limite – eis duas expressivas escolhas do dramaturgo alemão que permitem inúmeras extrapolações e desencadeiam outros tantos ecos. Todos sabemos que, a pretexto de respeito pela tradição, os mais atrozes crimes são cometidos, mas provavelmente nenhum texto dramático conseguiu como estes textos-gémeos desnudar o assunto até ao osso sem contudo o simplificar. E é desta estética apostada numa complexidade crua que decorre a escolha de rodar a totalidade do filme num lugar de vida dominado por uma majestosa escadaria – ou seja, uma estrutura arquitectónica produtora de múltiplas leituras. Ao invés do que acontece com a despojada frontalidade da representação teatral, a transposição cinematográfica joga na multiplicação de pontos de vista e de pontos de fuga até ao momento que se opera a falsa ou verdadeira convergência: a resposta. Foi nosso desígnio, por outro lado, de devolver aos intérpretes não-profissionais a força que advém do modo como se expõem e, ao mesmo tempo, se protegem. Nenhum suplemento de «expressividade» vocal ou gestual foi acrescentado à encenação do Teatro de Ferro porque se pretendia, com os meios da arquitectura a juntarem-se aos da música, preservar o impacto da estrutura, da repetição, da variação.

Regina e Saguenail 

 

Ficha Técnica

Teatro de Ferro, Qualificar para Incluir – Associação de Solidariedade Social, Riot Filmes e Hélastre apresentam – António Henriques, Bruno Cruz, Bruno Marques, César Fernandes, Dino Feição, Emanuel Guedes, Leandro Ribeiro, Ruben Malhadinhas, Elisa Gros Rodrigues, Márcio Joel Teixeira, Sandra Mota Coelho, Soraia Santos, Teresa Saturnino e Fátima Fonte em Brecht Para Principiantes

Um filme de Saguenail com trabalhadores e utentes da Qualificar para Incluir a partir das peças didácticas de Bertolt Brecht – O QUE DIZ SIM e O QUE DIZ NÃO

Encenadas por – Igor Gandra e Carla Veloso do Teatro de Ferro
Imagem – Paulo Castilho, assistido por Júlio Alves, Pedro Vasconcelos, João Abreu
Som e Misturas – Rui Coelho
Montagem – Pedro Vasconcelos e Saguenail
Música – Fátima Fonte
Intérpretes – Fátima Fonte (piano), Tiago Schwabl (flauta)
Assistentes de Realização – Inês Barbedo Maia, Luís Vieira Campos
Estagiária de Realização – Carlota Gandra
Apoio à Direcção de Actores – Igor Gandra, Carla Veloso
Direcção de Produção – Carla Veloso
Assistentes de Produção – Inês Barbedo Maia, Sandra Mota Coelho
Realização – Saguenail

O Teatro de Ferro é uma estrutura financiada pelo Governo de Portugal – Secretário de Estado da Cultura e DgArtes – Direção-Geral das Artes


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