Mas a viagem era sem fim NO PARKING
Vidro Pantera · Estilhaços de Heiner Müller
© LoTA Gandra
Mas a viagem era sem fim NO PARKING
Querem que eu fale de mim
Eu que
Eu de quem se trata
quando
Se trata de mim
Quem sou eu?
Quando cai o Muro de Berlin, Heiner Müller encontrava-se a preparar uma encenação de Hamlet, juntamente com A Máquina Hamlet, em Berlin Leste. Lembrando as manifestações desses meses, Müller chamou a atenção para uma mudança nas palavras de ordem: "Wir sind das Volk" (Nós somos o povo), uma afirmação democrática, transformara-se rapidamente em "Wir sind ein Volk" (Nós somos um povo), uma declaração de unidade da nação, com ecos alarmantes para quem ainda tinha vivido durante os anos do nazismo, como fora o caso de Müller, nascido em 1929. Müller diz então ter visto um cartaz empunhado por um manifestante, onde se podia ler: "Ich bin Volker" (Eu sou o Volker). "Volker" é um nome próprio em alemão e pronuncia-se de modo diferente de "Völker", o plural de "povo". Contudo, a proximidade das palavras permite, por um lado, uma leitura absurdista, até situacionista, e, por outro, recuperar um ideal de pluralidade de povos e de vozes no momento do retorno alemão à ideia do povo como entidade nacionalista. Este tipo de trocadilho historicamente específico, que, na impossibilidade da tradução, exige uma explicação, demonstra-nos a dificuldade em trazer à cena tantos dos textos de Müller em 2026. Há um tal compromisso com a história na obra de Müller que parece mais cómodo estudá-lo do que encená-lo, sobretudo num momento em que os acontecimentos a que Müller se refere obsessivamente se têm tornado numa memória cada vez mais remota.
A revisitação a Müller por parte do Teatro de Ferro e da Alma d'Arame evita duas soluções típicas: a escolha de textos menos evidentemente presos a referentes históricos, como Quarteto, ou a via da elucidação didática. Em vez disso, Vidro Pantera - Estilhaços de Heiner Müller é uma colagem de pedaços de textos, raramente incluídos de forma completa, alguns dos quais apresentados em alemão e em tradução, sem procurar explicar os vários contextos evocados pelos textos. Os estilhaços textuais encontram uma correspondência nos estilhaços da translação surrealizante de Panzerglas como vidro pantera, pela interferência de Panther, um tipo de tanque (Panzer) alemão do tempo da Segunda Guerra Mundial. Estilhaçado, o vidro da peça salta e ataca os espectadores com imagens e frases que invocam anjos desesperados ou sem sorte, um avião que metralha alguém que foge ("ATINGIR-ME NAS COSTAS O PORCO"), um croata emigrado na Alemanha que volta a casa, um caçador e o seu urso, Hitler, Goebbels, Germânia e os Três Reis Magos do Ocidente num bunker feito cenário de sitcom, Hamlet e Ofélia, cenas de combate com máquinas de guerra, cenas de uma revolta que começa como um passeio, e cenas em que se anatomiza a interioridade. Quem é o "Eu de quem se trata / quando / se trata de mim"? Uma resposta possível ouve-se no meio da revolta narrada por Hamlet em A Máquina Hamlet: "O meu lugar, caso o meu drama se tivesse realizado, seria dos dois lados da frente, entre as frentes, por cima".
Na encenação de Igor Gandra, com cenografia de Amândio Anastácio, é o próprio Heiner Müller que aparece representado dos dois lados da frente, entre as frentes, por cima. Através da proliferação de máscaras, de uma gigantesca cabeça esculpida em que, animado por IA, Müller franze as feições e se parece esquivar à luz que o arranca por momentos ao mundo dos mortos, e de marionetas que reproduzem literalmente o jogo amoroso de colocar o coração aos pés de outro, Müller aparece como sua própria personagem, tal como o foi realmente numa persona cuidadosamente delineada em fotografias, numa autobiografia dada a sacrificar os factos sempre que estes atrapalhavam uma boa história, e em quase três mil páginas de entrevistas coligidas nas suas obras completas. Trazido assim à cena, começa a impor-se a imagem estilizada do autor, este "Eu de quem se trata / quando / se trata de mim", cuja vida, a certa altura, se transformou também ela numa boa história. O autor morto que aqui se convoca não traz autoridade autoral, ele que tinha mandado rasgar a fotografia do autor perto do final de A Máquina Hamlet. Em vez disso, coloca-se em palco a fragilidade e dissonância de alguém que escolheu mostrar-se escondido atrás das suas peças, assim como dos óculos de massa, do charuto e dos casacos de couro.
Nesta descida ao mundo dos mortos e de uma história cada vez mais morta, indecisa entre a alienação do pormenor concreto e a abstração conveniente das lições da história, tudo se transforma noutra coisa. Restam apenas a poesia mülleriana da história e vários gestos teatrais de metamorfose, como as asas transparentes do anjo do desespero que se transformam em enormes bandeiras empunhadas por corpos vestidos até à cabeça com fatos de descontaminação, ou como nas estruturas de ferro e madeira que cumprem à vez a função de árvores desfolhadas, de tanques e de barricadas; até a cabeça gigantesca de Müller se move, como um cabeçudo folclórico, e se transforma depois num assento para cinco atores mascarados de Müller, ou num pequeno palco para duas marionetas müllerianas, quase carinhosas no seu trabalho incansável com o canivete. No final, ainda ouvimos Müller, mas é uma figura cujo rosto e mensagem, pela repetição e pela fragmentação, se tornaram irreconhecíveis: "O anjo ouço-o ainda / Mas ele já não tem outro rosto a não ser / O teu que eu desconheço".
- Miguel Ramalhete Gomes -
Abril · 2026